Sunday, April 18, 2010

MÚSICA PARA NINAR DINOSSAUROS estréia dia 24 de abril no Espaço PARLAPATÕES

Crítica postada por Nelson de Sá no blog CACILDA! em 20/03/2010

É um alívio ver que Mario Bortolotto escreveu uma comédia _e musical, ao menos parcialmente_ depois do que passou.

Uma comédia politicamente incorreta, misógina, como ele mesmo proclama no correr do texto; mas também de personagens ingênuos, adolescentes anacrônicos, antes filhos do que opressores das prostitutas que compõem metade dos 12 personagens, nesta produção de médio para grande porte.

Por qualquer razão, que não consigo identificar, são as mulheres da plateia que riem mais, bem mais. Talvez porque os papeis masculinos se exponham quase como crianças. Ou talvez, fantasiei a certa altura, porque o autor e ator, no episódio célebre, enfrentou assaltantes que agrediam duas mulheres.

(Outra imagem, que cerca hoje a figura de Bortolotto, no que também é abordado subliminarmente na peça, é que os tiros que levou, os dias sob risco de morte e por fim a cobertura espetacular elevaram o dramaturgo ao panteão da celebridade de mídia, embaralhando a relação usual da plateia com o palco, para o bem e para o mal, em ondas.)

A peça é engenhosa, a mais bem construída das que vi dele, e prostituição e misoginia claramente não são seus temas centrais, mas atalhos. Envelhecer, os amigos, amor e sexo: são estes os eixos. Por toda parte, as "one-liners" servem de porta de entrada para devaneios nada cômicos, num ruído constante de tristeza.

À primeira vista, o texto parece remeter à farsesca "E aí, Comeu?", de Marcelo Paiva, mas logo se percebe que não é o caminho do dramaturgo. É uma comédia amarga.

Não falta sequer uma tentativa de suicídio, de uma das prostitutas, lá pelo meio. E a "bagagem" revelada pouco a pouco, por todos, homens e mulheres, remete ao vazio, mais do que à saudade.

Talvez a frase de maior eco seja aquela de que, afinal, "não tem importância". Sonhos, ambição, a própria vida, nada tem.

Em tempo, "Música para Ninar Dinossauros" é dividida em dois planos, o presente quarentão e o passado pós-adolescente de três amigos. Em ambas as cenas, que se entrecuzam seguidamente sem interagir, eles estão com mulheres, prostitutas às quais se apegam quase como outros amigos, com quem falam sem precisar conter gestos e palavras.

A qualidade da interpretação surpreende, em muitas das atrizes e principalmente nos dois amigos não originalmente atores do próprio dramaturgo, Lourenço Mutarelli e Carlos Carcarah.

Como em quase tudo, é possível identificar lembranças de amigos reais em seus personagens, amontoando piadas e abuso verbal com fidelidade e proteção comum.

Vi no segundo dia, depois de uma estreia com muito atraso no festival de Curitiba, com problemas de iluminação e de ritmo, pelo que me contaram, e não vislumbrei maiores percalços.

É, muito provavelmente, o espetáculo de maior apelo de público que Bortolotto já escreveu, encenou e interpretou -e não só por ter se tornado celebridade. Mas sua voz singular, sua auteridade, como descreveu o diretor Roberto Alvim há pouco, num debate de ambos aqui, está lá. Não se perdeu.

(Nelson de Sá)
Crítica postada por Luciano Mazza no Caderno Teatral em 21/03/2010

Melancólica poesia urbana

Peça: Música Para Ninar Dinossauros |
Aguardado retorno do autor, diretor e ator Mário Bortolotto, “Música Para Ninar Dinossauros” fez suas primeiras apresentações na Mostra Oficial do Festival de Curitiba. A peça apresenta um trio de amigos, já passando dos quarenta anos, que recorrem a prostitutas para lhes fazer companhia em noites que parecem não ter fim. O texto mostra, em paralelo, a vida destes homens algum tempo atrás quando, jovens, já tinham seus destinos desesperançados traçados, e a relação com garotas de programa estabelecida. Os personagens da dramaturgia do autor vivem à margem de uma sociedade cujos códigos e valores rejeitam, são seres excluídos, e excludentes, estrangeiros em um mundo cada vez mais formatado, e no qual eles não se encaixam, não vêem sentido. Vivendo ao som do blues e do rock'n'roll, com cocaína, whisky ou cerveja, eles procuram belas mulheres para chamar de suas, embora aquelas a quem amam (e sim, algumas destas figuras são realmente apaixonadas, e constituídas de um romantismo próprio) os abandonaram. Aqui, este universo torna a aparecer, a grande diferença deste para outros textos do prolífero dramaturgo, é que seus personagens envelheceram. Se antes suas peças eram o olhar de uma juventude vazia ou deslocada, agora ele mostra essas mesmas pessoas dez, quinze anos depois, com suas escolhas consolidadas e suas angústias já assimiladas num peculiar estilo de vida, ou falta dele. Poeta urbano, o autor extrai, do banal, momentos bem humorados, que levam o público às gargalhadas, e outros, de profunda melancolia, trazendo com legitimidade uma certa idealização para a cena, onde sua iconografia, de influências como o movimento beatnik, surge forte e determinante para aquele ambiente. No que diz respeito a direção do dramaturgo, ela é bastante simples esteticamente, sem maiores preocupações formais, ou de acabamento, trabalhando com pouco, ele usa os recursos mais básicos, que sirvam a contar sua história, valorizando o texto e abrindo espaço para as boas atuações sobressaírem. Graças a este conjunto, uma das cenas mais bonitas, e representativas, da peça é quando uma das jovens prostitutas canta uma música, acompanhada por outra ao piano, desconstruindo o esteriótipo esperado. Quanto às interpretações, o principal destaque é o elenco masculino mais velho, encabeçado pelo autor e diretor, que sabe exatamente o quê, e como quer, que seu personagem - o mais interessante dos três – se materialize, de forma genuína. O cartunista Lourenço Mutarelli surpreende com uma interpretação um tanto agitada, a qual o público parece ter grande empatia. Paulo de Tharso, além da bela voz cantando, conduz sua figura na medida certa, sensível, e sem afetações. Já os jovens atores, Francisco Eldo Mendes, Carlos Carah e Marcelo Selingardi demonstram empenho, mas carecem, ainda, de maior amadurecimento de seus personagens, estando presos à forma, e soando um pouco como caricaturas dos atores mais velhos, em especial o primeiro. Com a continuidade dos ensaios é provável que eles fiquem mais confortáveis e independentes em suas criações. Das atrizes, destacam-se, pelas interpretações, Helena Cerello , em especial, e Carolina Manica, enquanto Paula Flaiban tem ótimos momentos cantando. Completam o elenco feminino Daniela Dezan, Wanessa Rudmer e Fernanda Sanches. “Música Para Ninar Dinossauros” - que estreia dia 24 de Abril em São Paulo - é uma típica peça do autor, mas com algo um pouco diferente em sua dramaturgia e que, em breve, pode surpreender.


O editor viajou a convite do Festival de Curitiba.


Serviço: Espaço dos Parlapatões (SP) | Sábado 21h e domingo 20h

Sunday, March 14, 2010

MUSICA PARA NINAR DINOSSAUROS de Mario Bortolotto
Estréia essa semana no Festival de Curitiba

É com um sabor diferente que eu aguardo essa estréia, como uma das atrizes e produtoras desse projeto. É uma peça que podia não ter acontecido. Não pelas dificudades naturais desse nosso dito "oficio", o teatro. Mas por uma questão de vida ou morte. Vida ou morte! Quando falo essa frase me lembro daqueles filmes de bang-bang, Sergio Leone, e cada vez mais essa imagem do velho oeste se cola na minha cabeça. Só que na espécie de um deja vu muito cruel. Na espécie de uma violência, que diferente daquela que era uma vez no oeste, não tem nada de anedótica. Na espécie de uma piada de mal gosto que nao rimos nem choramos, apenas nos anestesiamos e pronto. Nada acontece. A revolta fica ali silenciada. Como se estivesse sido censurada por um meteoro invisível. Todos sabemos que ele vem um dia, então porque lutar contra ele. Quem mora um pouco mais afastado do centro, na periferia, tá vendo esse filme apocalíptico ao vivo há muito tempo exibido em 3d dentro da sua sala sem telão. Mas até aonde vamos nos acostumar com isso? Com os caras entrando dentro de teatro? E agora dentro de uma igreja? Porque a casa do Glauco é uma igreja, caramba. A metralhadora de humor do cara foi silenciada por uma mente perturbada. E a perturbação tem tudo a ver com esse descaso, com essa desistência generalizada, com a ganância. Talvez o Glauco seja apenas uma pessoa de sorte, que só pregou a paz e o humor, e hoje esteja num lugar bem melhor que o nosso. Nós seguimos, fazendo nosso trabalho, que algumas poucas pessoas vão assistir. Mas Seguimos, indignados, meio ainda sem saber o que fazer. A tristeza é um prato que não se digere tão cedo.

____________________


Um pouco de “leveza” nesse mundo ...



DAQUI A POUCO VEM AÍ O CALENDÁRIO ...



Saiu ate uma notinha na TRIP desse mês sobre o calendário sensual que a Fabiana Vajman teve a idéia de fazer para arrecadar uma grana pra recuperação do Mario e do qual fui convidada pra participar. Os caras me perguntaram, porque o Bortolotto merece estar cercado de tantas mulheres fazendo um calendário sensual pra ele. Na verdade eu falei que eu acho que “O Mario vive cercado de mulheres porque ele tem o dom de ouvir as mulheres respeitando a inteligência delas, tudo bem que das ajeitadinhas ele tem o dom de ouvir um pouco mais”. Quer saber, no fundo, essa historia de calendário é uma grande brincadeira, pra gente se divertir, porque é isso que importa. Putaria é isso que a gente tá tendo que engolir por aí.


Segue o link:

http://newhost.trip.com.br/so-no-site/notas/bortolotto-girls.html
http://newhost.trip.com.br/so-no-site/notas/bortolotto-girls.html

Sunday, August 09, 2009

o marcelão publicou no blog dele esse texto que eu mandei pra ele ler ...

Esse texto é da minha amiga e atriz HELENA CERELLO, mulher do RAULZÃO. A de chapéu [que é meu]. E que se arrisca: poemas e, agora, ficção [contos]. Bom para ver no que ELAS pensam.

http://blog.estadao.com.br/blog/marcelorubenspaiva/
I

Segue. Mas antes abre a janela. Ouvi por debaixo da barba. Nós estávamos juntos há 36 anos. Que mania de acender a luz de manhã. Isso sim é imperdoável. Eu não queria mais ir em frente. Termina. Terminar era o fim. Fala mais. Eu quero dormir um pouco. Não dá tempo. Ele tinha razão. Abri uma fresta. Desisti. O dia não entrou. Era um vácuo. O quarto sairia pela janela se eu fosse em frente. No reflexo do vidro pude me ver. Várzea. Foi a palavra que me veio. Sempre fui varzeana dentro daquela aristocracia. Aquela natureza morta na parede do quarto da fazenda sempre me incomodou. Preferia meu bom e velho extinto pôster do Jules et Jim. Nua e com o pingo que me restava de pudor olhei a minha bunda pelo espelho. Eu ainda tinha uma bunda linda. Que mania de ficar olhando esse rabo. Vem aqui. Me abraça. Ele sempre fazia isso. Reagia naturalmente a toda e qualquer tragédia. Você quer que eu continue mesmo? Deixa pra lá. Não tem mais. Eu quero. Segue.
No limite. Eu recomecei. Nem sempre gostei de ouvir minha voz. Minha voz tem uma falha na partida. Chega largada. Lânguida. Chega com uma fragilidade austera assustadora às vezes. Aquele tipo de autoridade fraca a qual os bichos zombam e não obedecem. Mas às vezes em compensação sai com um excitamento tão involuntário que é até divertido. Algo que acontece assim ao fazer coisas prosaicas como falar com o porteiro eletrônico de algum edifício. Eu vou no cento e vinte e cinco. Soa como estou sem calcinha e estou subindo. É estranho.

II

Aquele dia minha voz estava especialmente grave. Lembro do telefone tocando às 10 da manhã. Passa aqui. Lembro do calor. Dele de azul com o jornal na mão. Lembro de quase todas as vezes que passei nesse último mês na frente da casa dele. E da alegria de estar vendo que aquele homem de azul ali era ele. Lembro do abraço mais tranquilo. Lembro de dizer, eu? Eu tô tranquila. Lembro de perguntar coisas. De querer mais ouvir que falar. Dos óculos Ray Ban. Lembro de ouvir porque ele escolheu o tema do seu livro novo. Lembro dele perguntar onde estamos indo. Não sei a gente nunca sabe pra onde está indo. Lembro de resolver ir pra pracinha das árvores. Nossa rua sem saída. Nossa sombra e do volume dele na calça. Adoro esse homem, pensei. E o beijo. Antes o violão ali. Lembro de me contorcer toda pra tocar dentro do carro. Lembro de um carinho no braço e do beijo. Gostoso. Dos moleques que deviam estar vendo a nossa molecagem. Lembro dele dizendo que queria meter em mim.
Difícil falar essa frase. Essa é melhor não. Lembro dele dizendo que queria sentir a minha boca. Minhas palavras. Isso. Lembro dele dizer que tinha saudade das minhas palavras. Lembro quase ao mesmo tempo do tesão e da ternura. Lembro um pouco do cheiro dele. O cheiro dele quase foge da minha lembrança. Mas é sempre um cheiro familiar. Lembro de suas palavras, de seu beijo e da sua ansiedade. Lembro de sentir. Ele gosta de mim. Lembro de decidir aqui não. Quero me deitar dessa vez.
Dessa vez. Difícil essa expressão. Dessa vez determina todo um contexto anterior a essa vez. Mas, foi como foi dessa vez.
Quero ir pra outro lugar. Então vamos! Vamos por dentro. Vamos pôr dentro? Por onde? Não sei, a gente nunca sabe pra onde está indo. Lembro de chegarmos a um acordo. Sem angústia. Mais um tango em Paris. Simples assim. Lembro dele elogiar minha poesia. Lembro dele pegar na direção. De me pedir pra ir beijando seu pau pelo caminho.
Difícil essa frase também. É tudo tão rápido que sai assim sem censura. E a voz fala, e agora chega, mesmo com a falha na partida.
Lembro dele dirigindo meu carro e quase batendo o meu carro umas cinco vezes. Lembro da gente rindo ao entrar no hotel. De errar a entrada. De dar a volta no quarteirão. Lembro de implorar pra moça da recepção deixar a gente entrar. Eu estava sem documento. Lembro de quase tudo. Lembro dele esquecendo o papel com o número do quarto no carro. De mim. Lembrando o número. Do estacionamento. Da aventura de achar o elevador. Das escadas. Dele rindo de mim. Você está engraçada! Eu estava decidida. Que quarto eu peço? O quarto. Pega o mais barato. Do quadro na parede. Uma mulher deitada de costas com o bumbum pra cima. De calcinha pequena. Cabelo Longo. A luz amarela entrando pela janela do banheiro. De mim. Tirando a roupa apoiada no batente da porta. Só de calcinha. Só de sutiã sem calcinha. A calcinha descendo devagar. Do bumbum empinado. Dele, já sem roupa, me olhando. O Quadro. O quarto. Sagrado é o lugar onde você está. Por que quanto mais profano o momento mais me vem a idéia de consagrá-lo? Lembro Dele de pé sem roupa e eu dizendo que estava quase honrada de estar ali naquelas circunstâncias. Lembro Dele me deitando de pernas abertas e me beijando. Lembro do beijo nas escadas. De dois homens num dos andares. E da gente rindo de uma piada que eu fiz. Se tu gostas de pau mole vou te levar a loucura. Lembro do telefone tocando sem parar. Eu pensando. O mundo está caindo lá fora e ele aqui comigo. Lembro que não chorei. Gozou? Só um pouquinho. Isso quer dizer. Ainda não. Ele de azul. Adoro ele de azul e de branco. Lembro que era segunda-feira. Era primavera. Dia 15 de setembro. Lembro dele e de como é sempre diferente. Lembro que ele me come. Dele quase gozando. Tirando. Mal agüentando. Lembro de mim. Encanada com a camisinha. Lembro de falar muito. Lembro de algum silêncio. Pouco. Lembro de uma ansiedade. Dele achando que broxou! Me lembro eu fui cruel e disse: bem feito! Na verdade, como nenhum homem nunca broxou comigo (verdade!) e ele me disse que nunca broxou, não sei, se aquilo de fato foi uma broxada. Prefiro ficar sem saber. Lembro de rir da ironia disso tudo. De pensar. Depois dessa, esse não é o último tango. Lembro dos corredores. Nunca sabemos pra onde estamos indo. Dos filmes do David Lynch. De dizer eu te amo. De ouvir eu também. Difícil essa frase também. Mais do que as outras. Lembro da luz branca do quarto se acendendo. De mim. Me olhando no espelho. De estar molhada. Dele passando o dedo. E dizendo. Você está molhada. Lembro dele falar da mulher na volta. Lembro que sonhei com ele. Lembro de contar que sonhei com ele. De dizer. Você terminava com a sua mulher. E estava com outra. Uma outra feia. Lembro dele rindo sem querer rir. Lembro de dizer. Fica com ela. Lembro de pensar. Por que falei isso? Você me inspira a escrever. Mas eu não quero mais escrever pra você. Lembro de dizer alguma bobagem sobre o presente. Mas não me lembro exatamente o quê. Do futuro falamos também. De talvez tomarmos chá um dia quando formos velhinhos. Rimos.
Lembro que nesse dia meu gato sumiu. É assim, meu gato some, de repente! Gatos somem de repente. Deixam a gente. Simples assim. Dessa vez está doendo menos. É menos começo a te esperar. E mais. Descubro um pouco mais o que há. Lembro de querer só escrever a lembrança do presente. Lembro agora ao ler que escrevi. Lembro que pensei onde vou guardar isso. De querer esconder bem. De não querer perder essa lembrança. De escrever pra que lembrar ficasse mais leve. Lembro que eu tinha um música do Tom Waits pra aprender a tocar no violão. All the world is green. Lembro que falei pra ele do meu tesão pelo meu professor de violão. Até isso eu lembro.

III

Eu preciso comer alguma coisa. Pega pra mim. A voz dele estava bem debilitada. Mas continuava forte. Voz de um velho. Que não sai mas chega. Eu sempre chamara ele de meu velho. Desde quando começamos a namorar. Eu com 24 e ele com 44 anos. Nossos amigos mais próximos de vez em quando me repreendiam. Não chama ele de velho. Ele gosta. Você ainda tem aquelas cartas? Meu pensamento estava longe. Fingi não ter ouvido. Mas a calma impressa no silêncio dele me derrubou. Eu tenho. Come. Eu estava pensando como alguns homens temem mais a família que a solidão. Eu quero dizer essa solidão da velhice. Do arsenal de remédios que alguém passa a te enfiar por todos os orifícios. Da dependência real do outro. Do definhar. Temem mais a família que a possibilidade de morrer sós. São homens muito corajosos. Topam mais viver com esse fantasma do que viver com alguém. Fazem de tudo para morrer antes dessa solidão chegar. Se imaginam cantando em silêncio suas últimas palavras. E o medo é outro. É de não ter uma bunda pra olhar nessa hora derradeira. Solidão chuva fina. And a little rain never hurt no one. Não, a solidão não é o pior castigo. Pior é não ter a bunda. Sempre tive atração por esses homens. Uma atração por abismos. Lê pra mim aquela carta que você me chama de seu avô. Eu não te chamo de meu avô. Eu não estava fazendo uma metáfora. Era uma carta de despedida minha pra um desses homens. Um homem que nunca acordou do meu lado. Medo de cair. Eu era o abismo.

Thursday, March 19, 2009


raul e a cibele forjaz

às vezes esqueço que moro com um gigante... quando ele sai... a falta gigante que ele faz... me faz lembrar

Monday, January 19, 2009

texto (escrito no exílio) de FERREIRA GULLAR

Onde andarás?

"Buenos Aires já foi uma alegria; a América Latina, mesmo sem Helena, fazia sentir-se menos infeliz"


COMEÇO A TE esperar, gritou ela da janela do apartamento, quando ele saiu do prédio e iniciou o caminho sem volta para o outro lado do mundo. Seu tempo em Moscou havia se esgotado, mas deixar Helena, separar-se dela para sempre, era como morrer e, ainda assim, seguia em frente pisando um chão coberto de neve naquela noite gelada. Foi quando ouviu o ruído de passos atrás de si e voltou-se. Ela se jogou sobre ele, abraçou-o e beijou-o chorando. Em seguida, sem que ele tivesse tempo de dizer qualquer palavra, deixou-o e voltou correndo para a entrada do edifício, onde sumiu. Ele rebentou em soluços e retomou seu caminho.
Até chegar à "abchejite", ainda no metrô, a frase de Helena não lhe saía da cabeça: "Começo a te esperar". Por que dissera aquilo, se sabia que nunca mais se veriam? Talvez o disse para tornar possível uma última esperança, já que ninguém suporta o fim arbitrário de um amor feliz.
Ao chegar a seu quarto, lá encontrou um grupo de amigos, que o esperavam com cerveja e vodka para se despedirem dele festivamente. Queriam saber onde estivera até aquela hora da noite, mas ele apenas sorriu e nada revelou. Puseram na vitrola um disco de samba, ele tomou um porre-mãe e só acordou de manhã, quando bateram à porta do quarto. Era um funcionário do PCUS, que o levaria para o aeroporto. Como um zumbi, trocou de roupa, pegou a maleta que já estava feita, desceu pelo elevador e entrou no carro que o esperava à porta da casa de estudantes. Como um zumbi, entrou no avião e adormeceu. Só acordou quando aterrizava em Roma, era como se acordasse de um sonho, que durara dois anos, e era agora devolvido à realidade. Chegou ao hotel, trancou-se no quarto e, deitado na cama, abandonou-se à derrota: chorou sem aflição, sem desespero, as lágrimas descendo-lhe dos olhos e ensopando-lhe a camisa. Nada fez para parar o choro, disposto que estava a chorar tudo o que devia chorar, até não mais ter lágrimas nem necessidade. Quando terminou, sentiu-se aliviado e vazio, um morto-vivo, que se ergueu, lavou o rosto e voltou a sentar-se na cama. Ainda bem que, na manhã seguinte, voaria para Santiago do Chile.
Na verdade, o vôo era Roma-Buenos Aires e pareceu não terminar. Nunca. Sentiu um misto de melancolia e consolo, quando o comandante informou que o avião bordejava a costa brasileira. Consolou-se com o fato de que sobrevoava o Brasil e que, lá embaixo, estavam seus filhos, sua mulher, seus amigos, sua gente. Mas doía-lhe saber que não poderia descer em nenhuma daquelas cidades, muito menos no Rio, e voltar para casa. Por quanto tempo ainda teria que suportar o exílio?
De qualquer modo, chegar a Buenos Aires já foi uma alegria, sentiu-se quase em casa. Calle Florida, Corrientes já lhe eram familiares. Estar na América Latina, mesmo sem Helena, fazia sentir-se menos infeliz.
Em Santiago, a situação era ameaçadora, pois os inimigos do governo Allende o boicotavam, comprando tudo nos supermercados e deixando a população sem alimentos suficientes.Uma greve de transportes parara o país, ao mesmo tempo que a ameaça de golpe militar pairava no ar. Em meio a esses problemas, ainda sentia a falta de Helena a tal ponto, que, certa tarde, ao cruzar uma avenida do centro da cidade, ele a viu entrar numa loja. Seu coração quase explode. Entrou na loja, mas não a encontrou; ao sair, viu que ela seguia pela calçada em meio aos transeuntes. Foi atrás dela, empurrando as pessoas que lhe dificultavam a passagem, mas de nada adiantou: uma esquina adiante, ela tomou um táxi e seguiu nele. Desapontado, voltou para o apartamento onde morava, na Providência. Só então se deu conta de que não podia ser ela, tudo aquilo não era mais que um delírio.
Passaram-se os meses, a situação política se agravou e um golpe derrubou Allende e o levou ao suicídio. Conseguiu sair do Chile para a Argentina, depois para o Peru e Buenos Aires, de novo. A vida seguiu adiante, envolta em sustos e desespero, até que, finalmente, voltou para o Brasil. Recompôs sua vida, retomou suas ocupações e esqueceu Helena.
Anos mais tarde, porém, ao ver um filme sobre a vida de Luis Carlos Prestes, depara-se, surpreso, com ela, a mesma daqueles anos, linda, falando e rindo na casa dele, em Moscou.
Onde andará ela, hoje? perguntou a si mesmo. Àquela altura, já a URSS se acabara e, certamente, ela, que sonhava conhecer o mundo, deveria ter saído de lá. Telefonou para um amigo, que também estivera em Moscou, e soube que ela fora para Cuba, donde seguira para Madri. Depois disso, ninguém teve mais notícia dela.
"E principiou um dos crepúsculos mais imensos do mundo, é impossível descrever. Fez crepúsculo em toda abóboda celeste, norte, sul, leste, oeste. Não se sabia pra que lado o sol deitava, um céu todinho em rosa e ouro, depois lilá e azul, depois negro e encarnado se definido com furor. Manaus a estibordo. As águas negras por baixo. Dava vontade de gritar, de morrer de amor, de esquecer tudo. Quando a intensidade do prazer foi tanta que não me permitiu mais gozar, fiquei com os olhos cheios de lágrimas"
mario de andrade

Saturday, December 06, 2008

Thursday, December 04, 2008

Sunday, November 23, 2008


Não tinha o pêlo felpudo
A gata que me adotou
Não tinha idade pra sair sozinha por aí
A gata que me adotou
Apesar dos olhos verdes de farol
Não tinha pra onde ir
A gata me adotou porque estava grávida ...
A gata que me adotou e bebeu do meu leite
Ou eu ?
Depois que me cativou,
a safada me convenceu a deixá-la ficar ...
Não necessariamente nessa ordem mas silenciosamente
Ficou
E quase com o mesmo volume de silêncio
Foi embora
Nosso estranho amor de mãe e filha durou o tempo de uma fotografia
Hoje comprei um pássaro numa dessas lojas que vendem animais
Comprei e soltei o bichinho
Sua liberdade custou 6 reais
Foi um alívio
Pra mim
Pensar que algumas liberdades realmente custam tão pouco
Alguém sempre paga o preço da nossa liberdade