Sunday, August 09, 2009

o marcelão publicou no blog dele esse texto que eu mandei pra ele ler ...

Esse texto é da minha amiga e atriz HELENA CERELLO, mulher do RAULZÃO. A de chapéu [que é meu]. E que se arrisca: poemas e, agora, ficção [contos]. Bom para ver no que ELAS pensam.

http://blog.estadao.com.br/blog/marcelorubenspaiva/
I

Segue. Mas antes abre a janela. Ouvi por debaixo da barba. Nós estávamos juntos há 36 anos. Que mania de acender a luz de manhã. Isso sim é imperdoável. Eu não queria mais ir em frente. Termina. Terminar era o fim. Fala mais. Eu quero dormir um pouco. Não dá tempo. Ele tinha razão. Abri uma fresta. Desisti. O dia não entrou. Era um vácuo. O quarto sairia pela janela se eu fosse em frente. No reflexo do vidro pude me ver. Várzea. Foi a palavra que me veio. Sempre fui varzeana dentro daquela aristocracia. Aquela natureza morta na parede do quarto da fazenda sempre me incomodou. Preferia meu bom e velho extinto pôster do Jules et Jim. Nua e com o pingo que me restava de pudor olhei a minha bunda pelo espelho. Eu ainda tinha uma bunda linda. Que mania de ficar olhando esse rabo. Vem aqui. Me abraça. Ele sempre fazia isso. Reagia naturalmente a toda e qualquer tragédia. Você quer que eu continue mesmo? Deixa pra lá. Não tem mais. Eu quero. Segue.
No limite. Eu recomecei. Nem sempre gostei de ouvir minha voz. Minha voz tem uma falha na partida. Chega largada. Lânguida. Chega com uma fragilidade austera assustadora às vezes. Aquele tipo de autoridade fraca a qual os bichos zombam e não obedecem. Mas às vezes em compensação sai com um excitamento tão involuntário que é até divertido. Algo que acontece assim ao fazer coisas prosaicas como falar com o porteiro eletrônico de algum edifício. Eu vou no cento e vinte e cinco. Soa como estou sem calcinha e estou subindo. É estranho.

II

Aquele dia minha voz estava especialmente grave. Lembro do telefone tocando às 10 da manhã. Passa aqui. Lembro do calor. Dele de azul com o jornal na mão. Lembro de quase todas as vezes que passei nesse último mês na frente da casa dele. E da alegria de estar vendo que aquele homem de azul ali era ele. Lembro do abraço mais tranquilo. Lembro de dizer, eu? Eu tô tranquila. Lembro de perguntar coisas. De querer mais ouvir que falar. Dos óculos Ray Ban. Lembro de ouvir porque ele escolheu o tema do seu livro novo. Lembro dele perguntar onde estamos indo. Não sei a gente nunca sabe pra onde está indo. Lembro de resolver ir pra pracinha das árvores. Nossa rua sem saída. Nossa sombra e do volume dele na calça. Adoro esse homem, pensei. E o beijo. Antes o violão ali. Lembro de me contorcer toda pra tocar dentro do carro. Lembro de um carinho no braço e do beijo. Gostoso. Dos moleques que deviam estar vendo a nossa molecagem. Lembro dele dizendo que queria meter em mim.
Difícil falar essa frase. Essa é melhor não. Lembro dele dizendo que queria sentir a minha boca. Minhas palavras. Isso. Lembro dele dizer que tinha saudade das minhas palavras. Lembro quase ao mesmo tempo do tesão e da ternura. Lembro um pouco do cheiro dele. O cheiro dele quase foge da minha lembrança. Mas é sempre um cheiro familiar. Lembro de suas palavras, de seu beijo e da sua ansiedade. Lembro de sentir. Ele gosta de mim. Lembro de decidir aqui não. Quero me deitar dessa vez.
Dessa vez. Difícil essa expressão. Dessa vez determina todo um contexto anterior a essa vez. Mas, foi como foi dessa vez.
Quero ir pra outro lugar. Então vamos! Vamos por dentro. Vamos pôr dentro? Por onde? Não sei, a gente nunca sabe pra onde está indo. Lembro de chegarmos a um acordo. Sem angústia. Mais um tango em Paris. Simples assim. Lembro dele elogiar minha poesia. Lembro dele pegar na direção. De me pedir pra ir beijando seu pau pelo caminho.
Difícil essa frase também. É tudo tão rápido que sai assim sem censura. E a voz fala, e agora chega, mesmo com a falha na partida.
Lembro dele dirigindo meu carro e quase batendo o meu carro umas cinco vezes. Lembro da gente rindo ao entrar no hotel. De errar a entrada. De dar a volta no quarteirão. Lembro de implorar pra moça da recepção deixar a gente entrar. Eu estava sem documento. Lembro de quase tudo. Lembro dele esquecendo o papel com o número do quarto no carro. De mim. Lembrando o número. Do estacionamento. Da aventura de achar o elevador. Das escadas. Dele rindo de mim. Você está engraçada! Eu estava decidida. Que quarto eu peço? O quarto. Pega o mais barato. Do quadro na parede. Uma mulher deitada de costas com o bumbum pra cima. De calcinha pequena. Cabelo Longo. A luz amarela entrando pela janela do banheiro. De mim. Tirando a roupa apoiada no batente da porta. Só de calcinha. Só de sutiã sem calcinha. A calcinha descendo devagar. Do bumbum empinado. Dele, já sem roupa, me olhando. O Quadro. O quarto. Sagrado é o lugar onde você está. Por que quanto mais profano o momento mais me vem a idéia de consagrá-lo? Lembro Dele de pé sem roupa e eu dizendo que estava quase honrada de estar ali naquelas circunstâncias. Lembro Dele me deitando de pernas abertas e me beijando. Lembro do beijo nas escadas. De dois homens num dos andares. E da gente rindo de uma piada que eu fiz. Se tu gostas de pau mole vou te levar a loucura. Lembro do telefone tocando sem parar. Eu pensando. O mundo está caindo lá fora e ele aqui comigo. Lembro que não chorei. Gozou? Só um pouquinho. Isso quer dizer. Ainda não. Ele de azul. Adoro ele de azul e de branco. Lembro que era segunda-feira. Era primavera. Dia 15 de setembro. Lembro dele e de como é sempre diferente. Lembro que ele me come. Dele quase gozando. Tirando. Mal agüentando. Lembro de mim. Encanada com a camisinha. Lembro de falar muito. Lembro de algum silêncio. Pouco. Lembro de uma ansiedade. Dele achando que broxou! Me lembro eu fui cruel e disse: bem feito! Na verdade, como nenhum homem nunca broxou comigo (verdade!) e ele me disse que nunca broxou, não sei, se aquilo de fato foi uma broxada. Prefiro ficar sem saber. Lembro de rir da ironia disso tudo. De pensar. Depois dessa, esse não é o último tango. Lembro dos corredores. Nunca sabemos pra onde estamos indo. Dos filmes do David Lynch. De dizer eu te amo. De ouvir eu também. Difícil essa frase também. Mais do que as outras. Lembro da luz branca do quarto se acendendo. De mim. Me olhando no espelho. De estar molhada. Dele passando o dedo. E dizendo. Você está molhada. Lembro dele falar da mulher na volta. Lembro que sonhei com ele. Lembro de contar que sonhei com ele. De dizer. Você terminava com a sua mulher. E estava com outra. Uma outra feia. Lembro dele rindo sem querer rir. Lembro de dizer. Fica com ela. Lembro de pensar. Por que falei isso? Você me inspira a escrever. Mas eu não quero mais escrever pra você. Lembro de dizer alguma bobagem sobre o presente. Mas não me lembro exatamente o quê. Do futuro falamos também. De talvez tomarmos chá um dia quando formos velhinhos. Rimos.
Lembro que nesse dia meu gato sumiu. É assim, meu gato some, de repente! Gatos somem de repente. Deixam a gente. Simples assim. Dessa vez está doendo menos. É menos começo a te esperar. E mais. Descubro um pouco mais o que há. Lembro de querer só escrever a lembrança do presente. Lembro agora ao ler que escrevi. Lembro que pensei onde vou guardar isso. De querer esconder bem. De não querer perder essa lembrança. De escrever pra que lembrar ficasse mais leve. Lembro que eu tinha um música do Tom Waits pra aprender a tocar no violão. All the world is green. Lembro que falei pra ele do meu tesão pelo meu professor de violão. Até isso eu lembro.

III

Eu preciso comer alguma coisa. Pega pra mim. A voz dele estava bem debilitada. Mas continuava forte. Voz de um velho. Que não sai mas chega. Eu sempre chamara ele de meu velho. Desde quando começamos a namorar. Eu com 24 e ele com 44 anos. Nossos amigos mais próximos de vez em quando me repreendiam. Não chama ele de velho. Ele gosta. Você ainda tem aquelas cartas? Meu pensamento estava longe. Fingi não ter ouvido. Mas a calma impressa no silêncio dele me derrubou. Eu tenho. Come. Eu estava pensando como alguns homens temem mais a família que a solidão. Eu quero dizer essa solidão da velhice. Do arsenal de remédios que alguém passa a te enfiar por todos os orifícios. Da dependência real do outro. Do definhar. Temem mais a família que a possibilidade de morrer sós. São homens muito corajosos. Topam mais viver com esse fantasma do que viver com alguém. Fazem de tudo para morrer antes dessa solidão chegar. Se imaginam cantando em silêncio suas últimas palavras. E o medo é outro. É de não ter uma bunda pra olhar nessa hora derradeira. Solidão chuva fina. And a little rain never hurt no one. Não, a solidão não é o pior castigo. Pior é não ter a bunda. Sempre tive atração por esses homens. Uma atração por abismos. Lê pra mim aquela carta que você me chama de seu avô. Eu não te chamo de meu avô. Eu não estava fazendo uma metáfora. Era uma carta de despedida minha pra um desses homens. Um homem que nunca acordou do meu lado. Medo de cair. Eu era o abismo.

Thursday, March 19, 2009


raul e a cibele forjaz

às vezes esqueço que moro com um gigante... quando ele sai... a falta gigante que ele faz... me faz lembrar

Monday, January 19, 2009

texto (escrito no exílio) de FERREIRA GULLAR

Onde andarás?

"Buenos Aires já foi uma alegria; a América Latina, mesmo sem Helena, fazia sentir-se menos infeliz"


COMEÇO A TE esperar, gritou ela da janela do apartamento, quando ele saiu do prédio e iniciou o caminho sem volta para o outro lado do mundo. Seu tempo em Moscou havia se esgotado, mas deixar Helena, separar-se dela para sempre, era como morrer e, ainda assim, seguia em frente pisando um chão coberto de neve naquela noite gelada. Foi quando ouviu o ruído de passos atrás de si e voltou-se. Ela se jogou sobre ele, abraçou-o e beijou-o chorando. Em seguida, sem que ele tivesse tempo de dizer qualquer palavra, deixou-o e voltou correndo para a entrada do edifício, onde sumiu. Ele rebentou em soluços e retomou seu caminho.
Até chegar à "abchejite", ainda no metrô, a frase de Helena não lhe saía da cabeça: "Começo a te esperar". Por que dissera aquilo, se sabia que nunca mais se veriam? Talvez o disse para tornar possível uma última esperança, já que ninguém suporta o fim arbitrário de um amor feliz.
Ao chegar a seu quarto, lá encontrou um grupo de amigos, que o esperavam com cerveja e vodka para se despedirem dele festivamente. Queriam saber onde estivera até aquela hora da noite, mas ele apenas sorriu e nada revelou. Puseram na vitrola um disco de samba, ele tomou um porre-mãe e só acordou de manhã, quando bateram à porta do quarto. Era um funcionário do PCUS, que o levaria para o aeroporto. Como um zumbi, trocou de roupa, pegou a maleta que já estava feita, desceu pelo elevador e entrou no carro que o esperava à porta da casa de estudantes. Como um zumbi, entrou no avião e adormeceu. Só acordou quando aterrizava em Roma, era como se acordasse de um sonho, que durara dois anos, e era agora devolvido à realidade. Chegou ao hotel, trancou-se no quarto e, deitado na cama, abandonou-se à derrota: chorou sem aflição, sem desespero, as lágrimas descendo-lhe dos olhos e ensopando-lhe a camisa. Nada fez para parar o choro, disposto que estava a chorar tudo o que devia chorar, até não mais ter lágrimas nem necessidade. Quando terminou, sentiu-se aliviado e vazio, um morto-vivo, que se ergueu, lavou o rosto e voltou a sentar-se na cama. Ainda bem que, na manhã seguinte, voaria para Santiago do Chile.
Na verdade, o vôo era Roma-Buenos Aires e pareceu não terminar. Nunca. Sentiu um misto de melancolia e consolo, quando o comandante informou que o avião bordejava a costa brasileira. Consolou-se com o fato de que sobrevoava o Brasil e que, lá embaixo, estavam seus filhos, sua mulher, seus amigos, sua gente. Mas doía-lhe saber que não poderia descer em nenhuma daquelas cidades, muito menos no Rio, e voltar para casa. Por quanto tempo ainda teria que suportar o exílio?
De qualquer modo, chegar a Buenos Aires já foi uma alegria, sentiu-se quase em casa. Calle Florida, Corrientes já lhe eram familiares. Estar na América Latina, mesmo sem Helena, fazia sentir-se menos infeliz.
Em Santiago, a situação era ameaçadora, pois os inimigos do governo Allende o boicotavam, comprando tudo nos supermercados e deixando a população sem alimentos suficientes.Uma greve de transportes parara o país, ao mesmo tempo que a ameaça de golpe militar pairava no ar. Em meio a esses problemas, ainda sentia a falta de Helena a tal ponto, que, certa tarde, ao cruzar uma avenida do centro da cidade, ele a viu entrar numa loja. Seu coração quase explode. Entrou na loja, mas não a encontrou; ao sair, viu que ela seguia pela calçada em meio aos transeuntes. Foi atrás dela, empurrando as pessoas que lhe dificultavam a passagem, mas de nada adiantou: uma esquina adiante, ela tomou um táxi e seguiu nele. Desapontado, voltou para o apartamento onde morava, na Providência. Só então se deu conta de que não podia ser ela, tudo aquilo não era mais que um delírio.
Passaram-se os meses, a situação política se agravou e um golpe derrubou Allende e o levou ao suicídio. Conseguiu sair do Chile para a Argentina, depois para o Peru e Buenos Aires, de novo. A vida seguiu adiante, envolta em sustos e desespero, até que, finalmente, voltou para o Brasil. Recompôs sua vida, retomou suas ocupações e esqueceu Helena.
Anos mais tarde, porém, ao ver um filme sobre a vida de Luis Carlos Prestes, depara-se, surpreso, com ela, a mesma daqueles anos, linda, falando e rindo na casa dele, em Moscou.
Onde andará ela, hoje? perguntou a si mesmo. Àquela altura, já a URSS se acabara e, certamente, ela, que sonhava conhecer o mundo, deveria ter saído de lá. Telefonou para um amigo, que também estivera em Moscou, e soube que ela fora para Cuba, donde seguira para Madri. Depois disso, ninguém teve mais notícia dela.
"E principiou um dos crepúsculos mais imensos do mundo, é impossível descrever. Fez crepúsculo em toda abóboda celeste, norte, sul, leste, oeste. Não se sabia pra que lado o sol deitava, um céu todinho em rosa e ouro, depois lilá e azul, depois negro e encarnado se definido com furor. Manaus a estibordo. As águas negras por baixo. Dava vontade de gritar, de morrer de amor, de esquecer tudo. Quando a intensidade do prazer foi tanta que não me permitiu mais gozar, fiquei com os olhos cheios de lágrimas"
mario de andrade

Saturday, December 06, 2008

Thursday, December 04, 2008

Sunday, November 23, 2008


Não tinha o pêlo felpudo
A gata que me adotou
Não tinha idade pra sair sozinha por aí
A gata que me adotou
Apesar dos olhos verdes de farol
Não tinha pra onde ir
A gata me adotou porque estava grávida ...
A gata que me adotou e bebeu do meu leite
Ou eu ?
Depois que me cativou,
a safada me convenceu a deixá-la ficar ...
Não necessariamente nessa ordem mas silenciosamente
Ficou
E quase com o mesmo volume de silêncio
Foi embora
Nosso estranho amor de mãe e filha durou o tempo de uma fotografia
Hoje comprei um pássaro numa dessas lojas que vendem animais
Comprei e soltei o bichinho
Sua liberdade custou 6 reais
Foi um alívio
Pra mim
Pensar que algumas liberdades realmente custam tão pouco
Alguém sempre paga o preço da nossa liberdade

Sunday, November 16, 2008



foto: Walter Antunes

Eu e Deus no Chevrolet ...


Minha mãe é uma gata. Ela é essa moreninha da foto. É a preta.
Quando eu era pequena, uma vez, minha mãe estava passeando comigo de carrinho e pararam ela na rua pra perguntar quanto ela queria pra mudar de emprego. Ela disse: “Eu não largo essa criança por dinheiro nenhum no mundo”. A gata tem um puta bom humor !!!
Tenho prestado muita atenção nas mães. Alguém que inventou aquela frase “Toda escolha é uma renúncia” deve ter se inspirado numa mãe.
Imagine se todas as mães do mundo fossem como as mães dos textos do Marião Bortolotto, o mundo ia estar bem fudido.Você pode não saber o que é comer um pedaço de bolo de fubá quente no fim de tarde na casa da sua vó, você pode passar a vida sem subir numa jabuticabeira com teu irmão e sem saber como se faz um bolinho de chuva, mas fudeu se tua mãe não está nem aí pra você.
Dou aula de dança e teatro pra criança de 3 a 17 anos (sim, tem muita criança de 17 anos). Faço isso por prazer, gosto muito da escola onde dou aula e bastante das crianças. Por isso mesmo às vezes volto pra casa pensando muito sobre essa história de ser mãe.
Tenho visto cada coisa. Pra começar da parte das escolas. Hoje existe uma paradinha numa certa escola bilíngüe que se chama “people of the week”, que nas palavras das crianças significa a “people da semana”.
As crianças são incentivadas pela própria escola a votarem entre elas, naquela que elas julgam ser a “people da semana”. Aquela que ganha, recebe um adesivo –troféu e passa a ser a “people da semana”, ou seja, uma espécie de mini celebridade.
Pra entender o critério que elas usam para julgar, perguntei pra uma turminha de 5, 6 anos, em quem elas votariam entre eu (que elas tinham acabado de conhecer), a professora de teatro delas (que está com elas há 6 meses) e o assistente (idem). Imagina, que elas me escolheram a “people of the week” !!! Eu, meio surpresa perguntei: porque eu ? “Ah, porque você é legal, tua roupa é legal e você é bonita”.
Tudo bem, são crianças de classe média alta e alguém aí pode dizer que a revolução só se faz pelas beiradas... mas a realidade hoje é tão complexa que se essa galerinha que está no topo não participar, sendo pelo menos, menos babacas que seus pais, talvez seja difícil qualquer evolução nas coisas.
O problema é que hoje pra muitos ser menos babaca significa cada vez mais ser a “people of the week”.
Ai, mãe ... quero ver quando chegar a minha vez ... de ser mãe ...

Thursday, November 13, 2008



levando uma gozada na cara ... só a gente mesmo pra levar uma na cara e agradecer depois ... valeu claudinho !!!

Friday, November 07, 2008

meu pai

"pra veronica, uma amiga que também tem medo de andar de avião e vai pra tocantins no reveillon de ônibus"

Eu tenho pavor de avião. Eu não sei o quê as pessoas pensam quando o avião está decolando pra ficarem tão calmas. Eu faço planos ... pra eternidade. Penso no que eu posso fazer no entre vidas, no que eu quero ser na próxima encarnação. Sou amor ... sou amor. E vou plasmando. Eu sofro do efeito plasma na cadeira. Eu vou plasmando derretendo mesmo o meu corpo na cadeira. E começo a rezar meio alto. Fico parecendo uma carpideira. Se uma câmera me filmasse ia registrar um sapo desenhado pelo Tim Burton.

Eu só sossego quando apagam aquele sinalzinho do cinto de segurança. Aí eu penso: se o capitão Abreu ou o Capitão José Paulo Pedreira, ou seja, o Anônimo, a quem eu entreguei minha vida apagou a luz do cinto é porque deve estar tudo sob controle. Você já percebeu que a gente quer saber tudo. Quem tá saindo com quem, quantas calorias têm numa porcaria de um pãozinho de mel, mas nunca quer saber o nome do capitão do avião. Quantas pessoas vão falar com ele? Talvez aquelas pessoas que têm o cartão mega plus azul da AIRFRANCE. Talvez eles façam a famosa visita a cabine. Mas nada, nem o cartão mega plus azul da AIRFRANCE dá a eles o direito de dizer: Desculpa Seu Abreu mas o senhor é meio estranho. Eu não confio no senhor.

Tá certo. É uma paranóia minha. Pra quê saber o nome do capitão ??? Pelo mesmo motivo que o cara paga mais pelo champagne, pela cadeira que reclina, pela fila da first class: é pra se ter a ilusão de que tudo está sob controle. Ou pelo menos quase tudo. Ou pelo menos pra se ficar mais confortável.

Talvez a paranóia seja essa. O que fazer com o corpo quando o corpo não tem o controle. Controle ?! Fiquei aqui pensando qual a imagem imediata pra palavra controle. O ícone POP do controle?! Sim existe isso ... o ícone POP do controle no Google é nada mais nada menos que ... o controle remoto. Ninguém tem mais controle do que o remoto ... pelo menos virtualmente. Controle: essa nóia é de plástico e cheia de botões.

Às vezes me pego com essa loucura. Acho que eu puxei meu pai. Meu pai é uma dessas pessoas que se não está com o controle ... ele está descontrolado ... e descontrolando. Viajar com meu pai é uma das coisas mais engraçadas ... e desconcertantes do mundo. Ele é uma bola de boliche. Ele num aeroporto já começa brigando com a moça do check-in e vai. Ele briga com a mulher que detecta metais (e sempre acaba ficando de meias) ... com a minha irmã que quer comprar alguma coisa já no free-shop da IDA. Ele grita com a aeromoça ... Quando é assim eu até comemoro. Pior é quando ele chaveca a aeromoça... e acha que ela está gostando. Na última viagem que fizemos juntos ele conseguiu brigar com o passageiro da cadeira da frente. O cara reclamou que a minha irmã estava passando pra ir no banheiro e batendo na cadeira dele. Meu pai disse: O que você quer que ela faça? Ele disse: “Dá pra ela ter mais controle nos movimentos dela. Essa cadeira é minha. Eu paguei por ela”. Nossa pra quê? Meu pai – descontrolado - voou pra cima do cara. Queria bater nele. Quando é assim, eu já tenho até uma fala pronta. Eu digo: “O meu pai é louco, ele vai te bater, fica longe dele, ele é louco de verdade”. As pessoas geralmente ficam assustadíssimas. O meu pai quando é assim começa a fungar alto, parece um personagem da commeddia dell´arte, o brighella. Cômico. Italiano. Gesticulando. Nesse dia, nessa altura o avião inteiro estava olhando pra ele e comentando. As pessoas ficam apavoradas quando alguma coisa sai fora do controle.

Geralmente eu sou a favor da harmonia, mas, quando essas coisas acontecem nesses ambientes caretas, eu internamente, acho engraçadíssimo quando meu pai faz isso. Nesse dia quase fiquei sabendo o nome do capitão da aeronave. “Sr. Antenor, como capitão dessa aeronave, exijo que o senhor se comporte de acordo com as normas dos bons costumes e da boa educação. Se o senhor não conseguir manter-se sob controle seremos obrigados a intervir de maneira não-convencional (?), Sem mais, Sr. Capitão.”